quinta-feira, 7 de abril de 2011

Ciências Sociais e Ciências da Religião

Curso: Pós-Graduação em Ciência das Religiões
Acesso ao Mestrado em Ciência das Religiões da Un. Lusófana
Disciplina: Metodologia do Trabalho Científico
Docente: Paulo Pinto Mendes
Discente: Silas Tavares e Sousa

Trabalho: Resumo do livro - Ciências Sociais e Ciência das Religiões
Polêmica e interlocuções
Autor – Marcelo Camurça - 1ª
Ed. – São Paulo: Paulina, 2008

Introdução

O livro, como o próprio subtítulo estampa: Polêmica e interlocuções, o autor deu um passeio pela emaranhada teia de aranha, e às vezes como numa embaraçada rede de pescador discorreu sobre uma das caçulas das ciências – “Ciência das Religiões, quando se depara com a Sociologia, Antropologia, Filosofia e Teologia. Como ele mesmo diz: “compondo o campo das chamadas “Ciências Sociais da Religião”.
De fato, o autor procura delinear, dar uma definição e colocar na árvore genealógica das ciências sociais a Ciência das Religiões. De uma vez por todas dar uma identidade própria. Não que ela, Ciência das Religiões, não seja uma ciência, mas da o entendimento que outras ciências da área social procurem sufocá-la.

Na verdade, é difícil desassociá-la da sociologia, por exemplo, pois esta, estuda o comportamento social e a religião está dentro da sociedade, em menor ou maior escala. Então este “conflito” vai ser um parceiro constante, mesmo nos tempos modernos quando eclode “Novos Movimentos Religiosos”, no Brasil e no mundo.

Capítulo I

No seu título, este capítulo já começa com uma indagação: “Ciência da religião, ciências da religião, ciências das religiões. Só por ai, já podemos perceber o quanto esta ciência é trabalhosa. É certo que existem dezenas ou centenas de religiões, mas o fenômeno é a religião. Então porque pluralizar a ciência ou religião? É claro, os estudiosos da área entendem que deve ser Ciência das Religiões. É certo, como já foi dito, há diversidade de religiões. O foco não são as religiões, mas o fenômeno religião. Por que a ciência não pode ser uma? Ou haveria uma ciência para cada religião?
Descreve o autor (p. 20/21): “A idéia de uma “Ciência da Religião”, em si, já provoca questionamentos do fenômeno religioso. O nome da disciplina sugeriria que um fenômeno empírico – histórico e cultural (também “espiritual”) – como o é a religião, exigiria uma ciência específica – a despeito do estoque variado das Ciências Humanas”. Assim da para se deduzir que a independência da ciência da religião é duradora, ou por ser caçula poderá, mais adiante, como esboça nesta obra, se emancipar.
Sobre Religião – religiões, na página 29, o ilustre cientista, Marcelo Camurça, cita autores Emile Durheim e Marcel Mauss como sendo “pais-fundadores de nossa disciplina” como pluralista, à época, desta ciência.
Ora, toda religião possui o seu credo, seu rito. Há um misto de cultura, história e, ate então, há que se falar propriamente dito, em uma Ciência para o fenômeno religião. Mesmo que esta, ainda caçula, continue na mesma moeda das ciências humanas e sociais.

Capítulo 2

Aqui tem a abordagem das Ciências Humanas e a Teologia, ambas, no sentido genérico atuam dentro do comportamento social. Esta última, a teologia, mais definida para um grupo social mais definido, ou pelo menos uma disciplina mais definida. Assevera o autor: “Como idéia matricial, penso que a(s) Ciência(s) da Religião no País nasce(m) e se desenvolve(m) confrontada(s) entre duas “linhas de força”: as Ciências Humanas e a Teologia”. Ele faz alusões ao Programa de Ciências Humanas da Religião da Universidade de Juiz de Fora/MG, que deveria focar o assunto religião com mais definição.
De outra forma, sublinha também a Teologia que influencia na estruturação dos Programas de Ciência(s) da Religião em instituições de ensino superior confessionais. Assim a Teologia não se sente confortável em ver outras ciências na área de ciências humanas intrometerem na sua área. Nesse ponto, o autor, com propriedade, cita : “Talvez nessas partículas, devesse ser tentada a “designação composta” de “Teologia e Ciências da Religião”, que Pye registra para o caso inglês, quando um programa de pós-graduação oferece os dois cursos paralelamente(Pey, 2001, p.15). Ora, se esta hipótese um dia for levada a efeito, poderia abrir precedentes, uma vez que outros ramos religiosos poderia avocar para si uma composição pertinente à sua área religiosa.
Estamos em tempos moderno onde a ciência, cultura e a religião também se modernizaram. No caso da religião, a sociedade parece que ficou saturada dos modelos tradicionais, então novas tendências e ordens religiosa despontam, algumas saindo de um mesmo tronco. Marcelo Camurça (p. 54/55, desta obra) dispara; “ O Brasil também se encontra atravessando por essas tendências hibridizantes, da multiplicidade de “encontras de culturas”, diz um estudioso – ressalvadas as características de cada período histórico – desde sua sociogênese (Sanchis, 1997). Neste sentido, não se pode falar entre nós de religiões animistas africanas sem recorrer à sua assimilação e sincretismo no candomblé e na umbanda (Batisde, 1971; Ortiz, 1999; Dantas 1998); tampouco podemos falar em “religiões cristãs”, em geral, depois do pentecostalismo à brasileira, tipo “Igreja Universal do Reino de Deus”, típico “produto de exportação” do Brasil para o mundo (Mafra,2002)”. Na inquietação social, a abertura do leque religioso se torna uma realidade.

Capítulo 3

Mostra inicialmente este capítulo, a preocupação com o método científico em Ciência das Religiões, onde vários autores “defendem a elaboração de um método unificado como constitutivo para nossa emergente área de conhecimento. Ainda nesta esteira, o autor cita Michael Pye, que faz coro com autores defensores na unificação, mas ressalva expressando do seguinte forma: “parece-me que em Michael Pey a questão é mais simplificada no seu projeto de constituição de um “estudo autônomo da religião” como “disciplina centrada em si mesma” (2001,PP 20,21). Para ele é “colocar entre parênteses [...] as reivindicações de verdade da religião em estudo” (2001, p. 27).
Segundo Camurça, a questão não é tão simples assim, pois, para um projeto unicista de Ciência das Religiões vai sempre esbarrar em pendências resultantes de “estrutura acadêmicas particularmente enraizadas (Pey 2001, p.26) que revelam uma “tensão entre valor religioso pressuposto da Teologia [e fenomenologia]) e reducionismo [...] implicado na explicação das Ciências Sociais) [e] entre localização sociocultural (enfatizada no trabalho de campo) e filologia “ (2001,P 18). Como se vê, Teologia e Ciência das Religiões estão na mesma moeda mas uma de cala lado.
Fala-se em “religiões concretas”, isto é, aquelas que têm como fonte a “experiência religiosa”, o que enseja que a Teologia deve ser tomada como dimensão própria, cujo objeto “religião” só pode ser “construído”, só pode emergir/irromper por intermédio de um método e teoria próprios (ou articulado interdisciplinarmente) e de suas instâncias de validação (Ciências Sociais, Histórias, Psicologia.) e dentro de contextos de realidade (psique, historicidade, sociocultural). Tenho a impressão de que não haverá um denominador comum, visto que as ciências humanas estão entrelaçadas e como tal a Ciência das Religiões.

Capítulo 4

Este capítulo vem intitulado com uma interrogação: “Pode-se falar de uma Antropologia da Religião dentro do Campo antropológico?”
Parece mesmo, que a antropologia seria a ciência mais adequada para adentrar no campo da religião. Mas a questão é de linguagem ou de interpretação, visto que a antropologia é mais exata do que a religião em si. A religião está pautada em crenças e tradições. É algo que, em primeiro momento vem de dentro para fora, é quase nato e tradicional. A Antropologia da Religião busca a cultura, a história, a crença, ritual. Tem mais liberdade, pois vai além da religião propriamente dito, uma vez que tem instrumentos de pesquisas próprios da antropologia; realça outros parâmetro e valores que desnudam a religião.
Pode até causar incomodo a antropologia na religião. A antropologia engloba todo o comportamento do homem, inclusive o lado religioso. Então a religião é mais um detalhe na malha da antropologia ou existe mesmo antropólogo da religião?
Marcelo Camurça, a propósito do subtítulo “A religião na modernidade e sua apropriação como disciplina pela Antropologia”, cita o seguinte trecho: “Na reflexão de Otavio Velho também podemos encontrar – de maneira indireta – pistas para uma postura “construcionista” da realidade da “religião” como objeto da Antropologia”. A sociedade se modernizou. A religião acompanhou esta modernidade?. A Antropologia tenta pelo menos explicar. E a Ciência das religiões, também não faria sua observação?
Na realidade, o campo é complexo, razão porque o autor expressa: “ Desta forma, fica demonstrada a importância crucial da “religião” na atualidade (que justifica, per se, um ramo da Antropologia voltado pra o fenômeno), mas só se pode visualizar a realidade dessa “religião” na confluência entre uma pluralidade de “experiências” e significados (símbolos, imaginários que tornam esse nome, religião, com também uma multiplicidade de realidade sociais, culturais, em que ela(s) se constrói(em) e que são construídos inspirados no significados produzidos por ela(s)”.

Capítulo 5

A primeira vista, dá a impressão que este capítulo tece assuntos relativos ao anterior quando traz o título: Em busca de “fundamentos para uma Antropologia da Religião. O autor, segundo ele mesmo, faz uso de sua experiência como docente da área de Antropologia da Religião, para discussão em torno dos fundamentos da antropologia da Religião.
Para ele não é fácil inserir a antropologia como disciplina que se relaciona com a religião, uma vez que aquela trabalha com dados mais reais, e a religião toca mais o abstrato. De fato, a religião é mais imaginaria, a não ser os ritos, simbologia e objetos de cultos. Como pode a antropologia tocar o confessional, colocar razão na fé? Daí o desconforto em adentrar nessa área.
Para trazer mais compreensão e acentuar a discussão Marcelo Camurça acrescenta: “Desta forma, gostaria de colocar, menos como questão de fundamento, mas como tema relevante da Antropologia da Religião, do ponto de vista teórico, justamente a relação entre a Antropologia e a religião. Começo por ressaltar o que penso ser uma afinidade mas também aporia, que constitui a relação entre Antropologia, ciência que busca a compreensão da alteridade “nos seus próprios termos”, e a religião, exemplo dessa alteridade por excelência, e por isso tema muito caro da Antropologia, mas que, no entanto, se define cercada por uma irredutibilidade a interpretação ‘exterior a ela.
De outra feita, o escritor faz alusão a Rita Segato, quando ela diz “em artigo em que expõe a pretensão antropológica de compreender “por dentro” o universo da religião, por meio do relativismo (operação pela qual se desconstrói tudo o que é tomado como “dado” e se legitima como “construção” a variedade das criações humanas) e a crença religiosa que somente pode ser experimentada pelo crente fiel como absoluta (1992,PP. 114-35).
Por outro lado, a modernidade e a secularização, segundo Camurça, trazem um abrandamento nas possíveis arestas causadas pela “guerra fundante”, uma vez que a religião tem dificuldade de explicar fatos comprovadamente científicos. Agora se fala em indiferença ou tolerância mutua em bases pragmáticas. Graças a “Cientistas e religiosos descobrirem que o estudo da religião enquanto fenômeno social/cultural não conduz ao seu desmoronamento e extinção”.
A despeito de tudo isso, quando o estudo ou a pesquisa tem o pendor de uma crença, “torna-se nativo”. Não chega a ser uma “distorção”, mas o foco pode se inclinar para uma “empatia e proximidade com a temática religiosa onde o autor deixa claro que dificilmente haverá um conceito único, chegando a dizer que as “interpretações das interpretações” que tanto a Antropologia e as Ciências Sociais fazem em cima das “interpretações” “religiosas enquanto discursos equivalentes, possam interagir e falar do outro, cada um do seu ponto de vista, mas sempre abertos a incorporações mutuas, que segundo Otavio Velho, “tanto pode ser fonte de desconforto, quanto de iluminação” (1998, p 12).

Capítulo 6

Novos Movimentos Religiosos – Entre o secular e o sagrado.

Estamos vivendo em tempos modernos. Parece que o futuro chegou, ou nunca vai chegar, ou que está sempre presente, dado o avanço célere da tecnologia e da ciência. A sociedade não ficou para traz. É bem verdade, que no universo de pessoas, dada a posição geográfica, o futuro, a modernidade ainda não deu a sua face. Ou quando então só a tecnologia bélica paira nesses rincões.
Há muito se vem desenhando a transformação social. A globalização e a secularização aceleraram a modernidade e afetou o comportamento social. A tecnologia criou necessidades e o tempo do homem moderno está preenchido, não há vazio. Com isso não quer dizer que a religião ficou de fora. Marcelo Camurça assevera nesta obra: “Contudo, neste alvorecer de um novo milênio, no mundo e no Brasil, a eclosão dos chamados “Novos Movimentos Religiosos”, dos movimentos místicos, dos “neo-esoterismos” e da “new age”, além da revivescência de tradições e fundamentos, no seio das religiões institucionalizadas, parece levantar desafios interpretativos e classificatórios aos estudiosos da religião e da realidade sociocultural contemporânea.
O ser humano continua religioso, a religião está sempre presente. O sagrado e profano estão no mesmo contexto, mas aquele parece emergir com mais força, “o boon, neste começo de era, de elementos sagrados e mágicos: rituais xamânticos e iniciáticos, práticas mágicas, utilização de objetos dotados de poderes (cristais, pirâmides), comunicação com entidades espirituais (transe, channeling), contatos com seres extraterrestres, crença em seres mágicos (espíritos, anjos, fadas, gnomos, duendes), “batismo no Espírito”, glossolalia, exorcismo, curas espirituais por imposição de mãos. Observa-se também que o conhecimento, a razão, e o livre arbítrio, o homem ficou mais independente. Não restam dúvidas que determinados fenômenos religiosos causam curiosidades. Quanto ao batismo no Espírito, no ano de 1906, mais precisamente na Rua Azusa,312, em Los Angeles/EUA, ocorreu um movimento “pentecostal” onde milhares de pessoas receberam o “batismo no Espírito, ocorrendo também o fenômeno glossolalia. Este fenômeno chegou ao Brasil em 1911, no Estado do Para.
Fala-se em “Novos Movimentos Religiosos”, talvez para disfarçar o que alguns autores colocam como declínio da religião. Ela, a religião, está intrínseca na sociedade. Ora sempre haverá novos movimentos religiosos. As novas gerações serão responsáveis e darão novas vestes a religião que, como acessório social, estará sempre presente no homem.

Capítulo 7

Neste Capítulo, intitulado – “Da boa e da má vontade para com a religião nos cientistas sociais da religião brasileiros”, o doutor Marcelo Camurça faz comentários sobre um artigo produzido pelo sociólogo Antonio Flavio Pierucci, no qual este “busca realizar um “balanço bibliográfico [...] dos estudos antropológicos e sociológicos sobre religião no Brasil”. (Pierucci,1999,p. 250), que na realidade, segundo Camurça, trata-se de um “exercício crítico de “sociologia da Sociologia da Religião” (p.246).
Para Pierucci a área da Sociologia da Religião se constituiu como “impuramente acadêmica”, carente de credibilidade cientifica perante as Ciências Sociais (Pierucci,1999,p.245) devido à presença em seu meio de “religiosos praticantes” e “profissionais da religião” que movidos por “interesses religiosos” – motivações pastorais, orientações eclesiásticas -, comprometem a “esfera intelectual autônoma” do labor científico com uma contaminação religiosa da prática intelectual, que redunda no “sacrifício do intelecto que toda religião implica e requer” (p. 247). Segundo deixou transparecer, tem o objetivo de valorizar a religião.
O entendimento de Camurça é que o estudo de Pierucci deixa transluzir que há o “envolvimento “afetivo-existencial” destes” “sociólogos-da-religião-religiosamente-comprometidos” (p.250). O campo da sociologia é quase infinito, não tem como se fazer afirmações exatas, principalmente na área da religião que tem um leque muito abrangente. É claro e evidente, que cada cientista ou estudiosos da área quer valorizar o seu trabalho. Fala-se até em “Desprestígio acadêmico” ou questão de “mudança de paradigmas”, como interrogação.
O Brasil, desde a sua colonização, teve ou sofreu uma forte tendência religiosa, principalmente no cristianismo. E com o advento da escravatura de “mão-de-obra” africana, o movimento religioso afro ascendeu neste País. Sempre haverá sociólogos, antropólogos e outras ciências afins “afetivo-existenciais”.

Conclusão

O comportamento do ser humano é complexo e em sociedade mais ainda. Não é de admirar a complexidade das Ciências Humanas, um conglomerado de “ciências” só voltado para ele, o ser humano. Neste edifício das ciências humanas Antropologia, Sociologia, Direito, Filosofias, Teologia, História e outras afins, surge a Ciência das Religiões, e o que se observa, é que nenhuma delas podem sobreviver isoladas, haverá sempre uma interdependência.
Parece que a Ciência das Religiões conflita ou se aproxima mais da teologia ou como disse o cientista Marcelo Camurça, comentando o estude de Pierucci: “o envolvimento “afetivo-existencial” destes “sociólogos-da-religião-religiosamente-comprometidos”. Falou-se até em Antropologia da Religião. Será que podemos expressar em interferência ou necessidade de se fazer estudos mais conclusivos ou cientificamente mais acabado ou exato? O certo é que a Ciência das Religiões é uma realidade. Está consolidada e já é parte integrante do edifício das ciências humanas.


Brasília-DF, 09 de outubro de 2009


Fonte:.http://www.cienciadasreligioes.eu/
Silas Tavares e Sousa

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